Eficiência não pode esperar o governo

Boa parte das empresas brasileiras está preocupada em reduzir o consumo de energia, mas ainda considera o governo o principal responsável pelas ações de eficiência energética no Brasil, aponta a pesquisa Radar da Eficiência Energética, realizada este ano pela Schneider Electric Brasil. O levantamento mostrou que 86% das 236 empresas entrevistadas, entre pequenas, médias e grandes corporações, têm planos de reduzir o consumo de energia nos próximos três anos, mas a maioria considera o governo federal o ator mais importante da eficiência energética no país, à frente dos consumidores e da iniciativa privada. As companhias também não estão preparadas para um eventual corte no fornecimento de energia: apenas 12% têm capacidade para atender o consumo em caso de racionamento. No momento em que o governo conta com a redução voluntária da demanda, entre outras medidas, o presidente da Schneider Electric do Brasil, Rogério Zampronha, acredita que esse é o cenário ideal para disseminar conhecimento e investimentos sobre o segmento. O executivo, formado em Economia pela USP e à frente da empresa desde 2013, avalia que ainda falta um movimento interno nas próprias empresas, independente de ações governamentais, que consiga fazer com que os projetos de eficiência energética tenham na prática um papel importante no crescimento econômico das corporações que os adotam e da sociedade como um todo.

A sondagem realizada recentemente pela Schneider Electric demonstrou que ainda falta planejamento de eficiência energética dentro de um número significativo de empresas entrevistadas. Quais os entraves no segmento e o que falta para o tema deslanchar no país?

Quando pensamos em eficiência energética, pensamos no risco da operação e no componente econômico, além do componente da sustentabilidade ambiental. Para boa parte das empresas dentro da sondagem, a eficiência energética como pilar de sustentabilidade é o componente mais representativo. Ele surgiu em 37% dos casos, demonstrando a forma não tão abrangente com que a eficiência energética é tratada. Ainda não há um número muito grande de empresas que veem a eficiência energética também como elemento de vantagem competitiva para crescimento econômico.

Então, isso leva a uma primeira conclusão: a de que ainda há pouco conhecimento do setor sobre os projetos de eficiência. Sabe-se que eles são bons, mas a visão do impacto econômico ainda não está claramente disseminada. E esse é um entrave interno dentro das organizações.

Existem outros entraves que são inerentes não só à eficiência, mas a diversas ações de modernização, relacionados a investimentos e benefícios. Se forem considerados isoladamente de todo o cenário que cerca a companhia, os projetos de eficiência vão ser vistos, eventualmente, como um projeto com um payback não tão bom quanto outros projetos.

Por que a eficiência energética não pode ser vista isoladamente do ambiente que a cerca na empresa?

Quando há investimento em um projeto de eficiência energética, são obtidos dois efeitos colaterais extremamente positivos. Um seria a mitigação dos gastos internos. E o outro, a redução de investimentos governamentais em mais geração, transmissão e distribuição de energia elétrica. Então, quando se olha para os investimentos em eficiência energética não só dentro das indústrias, mas considerando também o impacto deles ao redor, há um payback absolutamente fantástico, que, de fato, não é capturado 100% pelo investidor, mas é destinado em parte à sociedade e ao governo. Isso infelizmente ainda tem de ser difundido.

Então, como superar o entrave da falta de informações e capacitação em eficiência energética hoje dentro das empresas? Realmente faltam esses elementos?

Se fizermos uma análise do substrato das grandes corporações, vamos encontrar nelas áreas específicas para gestão energética, seja para conta de energia, para definição de projetos de eficiência ou cogeração e diversificação da matriz. Só que esse grupo ainda é muito pequeno perto da população de empresas industriais, comerciais e de serviços que existe. As indústrias que não fazem parte do topo da pirâmide, se podemos chamar assim, têm muito menos estrutura e acesso à informação e seria ingênuo imaginar que um estabelecimento de quinze pessoas faça investimento em eficiência energética.

Posso dizer que existem instituições que fazem um trabalho excepcionalmente bom de educação financeira, por exemplo, do micro, pequeno e médio empreendedor. Podemos falar de Sebrae [Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas] e do Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], por exemplo, mas que não entram no mérito da energia. Então, um dos caminhos é estimular essa mesma cadeia de valor que leva informação ao micro, pequeno e médio empreendedor a começar também a abordar o tema da eficiência energética.

Seria mais uma questão de abrir os olhos das empresas para eficiência energética, do que propriamente se enquadrar em um processo de governo para estimular essas ações? Seria questão de criar uma educação para o uso eficiente da energia nas empresas?

Li outro dia no jornal alguém comentando que todos os estágios da sociedade brasileira dependem do governo para fazer algo, seja para conseguir um bom financiamento, com taxa boa, seja para conseguir um emprego ou algum outro tipo de apoio. Não devemos pautar nosso destino em função do que o governo nos dá ou deixe de dar. Somos uma sociedade e o governo é um dos regimentos dela.

Investir em eficiência energética traz consigo uma consciência de sustentabilidade importante, que tem de ser vista não apenas sob o aspecto ambiental, mas também de sustentabilidade do próprio negócio. Quero ter um negócio rentável, diferenciado? Então preciso ser eficiente nos meus projetos, no meu consumo de energia, no uso da mão de obra, dos meus recursos, na minha comunicação com o cliente e outros. Alguém, por exemplo, pede ajuda do governo para investir em campanha publicitária de maquilagem? Alguém pede benefício fiscal do governo para investir em propaganda de refrigerante? Não. Esses itens são entendidos como elementos da cadeia de valor críticos para o negócio. Eficiência energética é um elemento hoje mais crítico do que nunca. Se tivéssemos abundância de energia a custos baixos, não seria o caso. Mas hoje temos o oposto. Então é uma questão do negócio que tem de ser monitorada e decidida pelo próprio empreendedor.

O senhor acredita, portanto, que o momento atual é propício para investir em eficiência energética?

Talvez eu não tenha visto momento mais propício que o atual. E as razões pelas quais eu acredito que seja o melhor momento são muito claras. Temos um ambiente potencialmente restritivo quanto à disponibilidade de energia elétrica, no qual o custo impacta bastante as operações de qualquer natureza e de retração econômica extremamente importante, forte, que obriga qualquer empreendedor, executivo ou funcionário a apertar o cinto. E não é para menos. Poder manter o nível de atividade com menos é o ambiente perfeito.

Considerando o cenário atual de tarifas altas, se uma empresa decidisse hoje investir fortemente em programas de eficiência, teria retorno médio em quanto tempo?

Cada empresa tem um estágio tecnológico e processos de negócio diferentes. Consequentemente, o impacto da energia também é diferente. Posso dar o exemplo de um grande grupo brasileiro, que gera uma parte da energia que consome e vende o excedente para a rede. O dilema apresentado foi: “Preciso diminuir meu consumo sem diminuir minha produção, mas quero ter mais liberdade para vender energia à rede, uma vez que isso está se tornando uma fonte de receita crítica para nós”. Nós propusemos um projeto, no qual o prazo de implementação foi de mais ou menos seis meses e 30% da energia que o cliente consumia foi liberada para a rede. É um exemplo. Obviamente, com o nível das tarifas que temos hoje no mercado livre, é um projeto extremamente atraente. Ele não apenas deixou de consumir, como está vendendo essa energia. É duplamente bom para o cliente.

Na sondagem realizada pela Schneider, há sugestões da empresa sobre o que pode ser feito para estimular a eficiência. Entre elas, leilões de eficiência. De que forma poderiam trazer benefícios para o segmento?

Vou dar um exemplo para ilustrar a amplitude do que pretendemos. No ano passado, tivemos o leilão exclusivo para energia solar, iniciativa que eu vejo com muito bons olhos, uma vez que ela gera massa crítica para um tipo de geração que faz parte da matriz que desejamos ter: limpa, renovável e, se possível, próxima dos pontos de consumo. Então, a questão é basicamente sobre leilões específicos para tipos específicos de energia ou para regiões específicas. Um leilão desse tipo, ao gerar massa crítica, acaba por trazer o custo da geração bem para baixo ao longo dos anos. Para energia eólica, por exemplo, o preço está saindo mais baixo, na comparação com anos atrás, porque já conseguimos desenvolver o conhecimento necessário sobre esse tipo de geração.

Outro ponto seria: a partir do momento em que eu, mantendo o mesmo nível de atividade econômica, reduzo meu consumo de energia, estou eliminando a necessidade de alguém investir na geração na quantidade equivalente à economizada. Portanto, eu poderia ter o direito de entrar em um leilão ou de oferecer a energia, desobrigando e desonerando alguém de investir nessa necessidade de geração e distribuição. Quando chegarmos a uma regulamentação adequada para esse tipo de atividade, eu diria que alcançamos um ponto bastante moderno na gestão da eficiência energética e dos projetos de geração de energia.

De fato, há um tempo, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) cogitava fazer leilões de eficiência energética. Haveria espaço hoje para criar, se não um leilão da forma como conhecemos, um ambiente onde seria possível comprar consumo eficiente de energia?

Sempre há espaço quando há vontade de fazer. Um exemplo é a mitigação da pegada de carbono. Com determinados projetos, posso gerar certificados negociáveis que são equivalentes à quantidade de carbono que deixo de emitir. Seja um projeto dentro ou fora da minha indústria. Por que não há um mecanismo similar para o tema da energia? O modelo de certificados seria um dos mecanismos que fomentariam esse tipo de investimento. O mecanismo está dado, conhecido e a gente pode simplesmente copiar e adaptar.

Falando de apoio governamental, o que o sr. pensa da queda de 84% das verbas destinadas ao Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) nos últimos três anos?

Eu não posso julgar, já que não sou do governo, o que leva ao aumento ou diminuição de determinada verba para certos programas. Quando menciono olhar para o entorno da empresa e ver o destino dos investimentos em eficiência energética, vejo claramente que cada real investido na área desobriga o governo a investir algo na geração e distribuição. Como falei, ainda não acho que isto seja claramente entendido e comunicado à sociedade. Se conseguirmos colocar os “pingos nos is” e demonstrar o benefício à sociedade desse tipo de investimento, os órgãos governamentais terão bastante incentivo para estimular projetos dessa natureza.

Quanto ao financiamento, há aspectos normais ou excessivos para o acesso às linhas de crédito? Há de fato muita burocracia?

Acredito que as coisas não são tão complexas como se apresentam. Acho que falta um pouco de engajamento para correr atrás do que está disponível. A Abesco [Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia], por exemplo, tem trabalhado com diversas instituições financeiras para sensibilizá-las sobre o tema e facilitar o acesso a linhas de crédito. A gente tem de ter instituições que incentivam, facilitam e geram conhecimento e informação, mas também a simplificação dos processos – e aí entra um movimento liderado eventualmente por órgãos federais –, para permitir que mais e mais empresas tenham acesso a determinadas linhas de financiamento e possam investir em eficiência energética com um payback razoável, um benefício a toda a sociedade, não apenas àquele que está fazendo o investimento. Mas é uma jornada. Acho que as coisas estão um pouco mais difíceis em função das medidas de ajuste fiscal – que a gente entende necessárias. Com um pouco mais de tempo e dedicação, porém, é possível que tudo fique mais fácil para a eficiência energética.

Fonte: Revista Brasil Energia - Junho 2015